Palco, política e hipocrisia: quando a esquerda troca o debate pelo microfone
Neste domingo, artistas ligados à esquerda decidiram transformar praças públicas em palcos políticos. Não para cantar apenas suas músicas — o que fazem bem —, mas para vocalizar discursos que reforçam a tensão institucional e a narrativa de confronto permanente. A cena não é nova, mas volta com força: microfone na mão, ideologia no bolso e aplausos garantidos.
Lembro de um verso de Lulu Santos que cai como luva: “Não leve o personagem pra cama, pode acabar sendo fatal…”. É exatamente isso que se vê quando artistas abandonam o ofício artístico para vestir o figurino de analistas políticos. A música encanta, a fala desanda. O exemplo clássico é Caetano Veloso: genial no palco, errático quando decide interpretar o país fora da poesia.
É evidente que esses atos devem atrair multidões. Não pelo conteúdo político, mas pelo capital simbólico que esses artistas carregam. As pessoas vão pela trilha sonora da própria vida — não por adesão consciente a projetos ou ideias. O problema surge quando essa aura cultural passa a ser usada como selo de autoridade moral e política.
Nesse contexto, virou moda atacar Hugo Motta. A esquerda e seus satélites escolheram um alvo e passaram a tratá-lo como vilão oficial da semana. O estopim foi o debate em torno do projeto da chamada “dosimetria” — um texto frágil, mal explicado e explorado politicamente como se fosse uma cruzada ética.
O paradoxo é gritante: muitos dos que hoje gritam contra a dosimetria foram, no passado, beneficiários diretos da anistia. Pessoas ligadas a assaltos, estouros de bancos, atentados contra embaixadores e outras ações criminosas agora se apresentam como guardiãs da democracia. A seletividade moral virou regra.
Mais constrangedor ainda é ver figuras que se autointitulam defensoras dos pobres ocupando espaços religiosos para promover discursos de ódio político, travestidos de virtude. Não há coerência em usar o nome de Deus para justificar perseguição, vingança ou encarceramento eterno. Nenhum cristão sério pode defender a negação da dignidade humana ou o afastamento definitivo de pessoas de seus lares, como se o sofrimento alheio fosse instrumento pedagógico.
O golpe institucional que o país enfrenta não é abstrato. Ele tem nome, sobrenome e endereço político. Está sendo operado de dentro, por atores que ocupam o topo da estrutura de poder e manipulam narrativas com eficiência cirúrgica. Enquanto isso, artistas cantam, plateias aplaudem e o debate real é substituído por slogans.
leia também: Projeto de Lei da Dosimetria: Efraim prevê aprovação no Senado
Hugo Motta, se mantiver sua posição, enfrentará um caminho árduo. Será atacado, pressionado e demonizado. Mas a história mostra que quem atravessa o calvário sustentando convicções costuma sobreviver às fogueiras morais. No fim, o tempo — esse juiz que não canta nem discursa — separa os que usam o palco dos que enfrentam o peso das decisões.
E esse acerto de contas chega. Sempre chega. E quando chega, não há refrão que oculte o som do choro nem do ranger de dentes.
Marcelo Negreiros – Jornalista
Descubra mais sobre leia58.blog
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.






🔍 Concorda? Discorda? Tem uma experiência parecida ou uma visão diferente? Compartilhe nos comentários! 👇