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O Forró PEDE Socorro: UMA MORTE Anunciada

patrocínios, consumo obrigatório e espetáculos grandiosos. Hoje, é comum encontr

Os festejos juninos ganharam uma dimensão completamente diferente em diversas cidades do Nordeste, região que viu nascer o forró, o baião, o xaxado e o xote. O que antes era uma celebração popular das tradições nordestinas transformou-se, em muitos lugares, em um grande negócio marcado por patrocínios, consumo obrigatório e espetáculos grandiosos.

Hoje, é comum encontrar estruturas que lembram a Marquês de Sapucaí, com palcos gigantescos, camarotes luxuosos, bufês sofisticados e áreas exclusivas destinadas aos mais abastados. Na parte de baixo, corredores separam os que podem pagar mais daqueles que apenas desejam participar da festa, criando uma divisão social que contrasta com a essência popular dos festejos juninos.

Os patrocinadores ditam as regras. Em muitos casos, o público é obrigado a consumir produtos de marcas específicas. No palco, predominam a sofrência, o piseiro e o sertanejo vindo de outras regiões do país. Há espaço para quase todos os estilos musicais, menos para aquele que deu origem à própria festa: o forró.

Não se trata de ser contra artistas ou gêneros musicais. A questão é outra: os festejos são juninos e possuem identidade cultural própria. O problema surge quando essa identidade passa a ser substituída por atrações que pouco ou nada dialogam com a tradição nordestina.

Lembro-me de uma visita a Campina Grande, em dois mil e alguma coisa, durante o curso de Jornalismo. Na ocasião, o jornalista, crítico de cinema e escritor Willis Leal já fazia um alerta que, à época, parecia exagerado para muitos. Ele questionava: “Vocês já viram, nessas festas que se dizem juninas, as figuras de Santo Antônio, São João e São Pedro?”. Para ele, estava em andamento um processo de descaracterização cultural que ameaçava a essência do São João nordestino.

Willis também denunciava o crescente investimento em modelos de festas inspirados em grandes eventos de massa, em detrimento das manifestações tradicionais. Passados alguns anos, os fatos parecem confirmar suas preocupações.

Um dos exemplos mais recentes envolve o sanfoneiro Flávio José, um dos maiores representantes do autêntico forró nordestino. Sua filha, a cantora Lara Amélia, usou as redes sociais para lamentar o cancelamento de apresentações do artista nas principais programações juninas da Bahia em 2026.

Em sua manifestação, Lara afirmou que a perda de espaço dos músicos tradicionais para artistas de outros gêneros faz parte de um processo acelerado de transição cultural. Segundo ela, a permanência de nomes como Flávio José nos palcos representa uma forma de resistência diante de um mercado que privilegia tendências comerciais em detrimento da música que ajudou a construir a identidade cultural nordestina.

Ao definir o pai como “a cultura nordestina encarnada em pele e osso”, a cantora fez um apelo para que o público valorize os defensores do forró tradicional enquanto eles ainda estão em atividade. Sua declaração reacendeu um debate antigo envolvendo produtores, gestores públicos e a própria sociedade sobre a distribuição de recursos, espaços e horários entre o forró autêntico e as atrações nacionais de outros estilos durante o mês de junho.

Em Patos, é justo reconhecer o esforço da Secretaria Municipal de Cultura em manter viva parte dessa tradição, reservando um espaço específico para os amantes da cultura junina. A iniciativa merece aplausos. No entanto, o espaço ainda é pequeno diante da grandiosidade da festa e poderia receber atrações populares de maior alcance, capazes de atrair mais público para o universo do forró tradicional.

O problema é que a lógica atual parece obedecer mais aos interesses do mercado e dos patrocinadores do que à preservação da cultura. O que vende mais recebe mais espaço. O que representa nossas raízes, muitas vezes, é empurrado para os cantos.

E assim, pouco a pouco, o Nordeste corre o risco de assistir à morte anunciada de uma de suas mais importantes expressões culturais. Quando o forró deixa de ser protagonista do São João, não estamos apenas mudando a programação de uma festa. Estamos abrindo mão de uma parte da nossa própria identidade.

Marcelo Negreiros – Jornalista DRT 2974/PB

Fonte: manual-1781448739882


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