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Entre anabolizantes e apostilas: a “filha de ouro” que comprou o CNU — e a “candidata gênio” que continua passando em concursos de R$ 27 mil sob investigação da PF

O conto de fadas da meritocracia brasileira ganhou mais um capítulo digno de roteiro policial. A Polícia Federal revelou que a jovem Larissa de Oliveira Neves, 25 anos — apelidada nos bastidores de “filha de ouro” —, comprou sua aprovação no Concurso Nacional Unificado (CNU) por R$ 400 mil. O caso veio à tona na Operação Escolha Errada, que desmantelou uma quadrilha especializada em fraudar concursos públicos federais.

Enquanto deveria estar em Brasília, mergulhada nas provas do curso de formação para auditora fiscal do trabalho, Larissa trocava mensagens com o pai, Antônio Limeira das Neves, sobre a venda de anabolizantes. As conversas, interceptadas pela PF, mostram que, entre abril e maio deste ano, ela recebeu do pai uma lista de substâncias proibidas e demonstrou interesse imediato, perguntando preços — tudo isso enquanto fingia estudar.

A jovem, natural de São Paulo e ex-agente penitenciária, decidiu comprar o atalho da estabilidade. O esquema foi montado pelo tio, Wanderlan Limeira, ex-policial militar com histórico criminal e apontado como líder da organização criminosa.

Sem o dinheiro à vista, a família vendeu imóveis e até um Honda Civic vermelho para pagar a fraude. Nas mensagens, Larissa aparece negociando “descontos” e combinando o envio do gabarito pronto. O resultado veio rápido: ela fez a prova em Patos (PB) e tirou nota idêntica à de outros membros do grupo, coincidência que nenhum estatístico no planeta explicaria.

A PF descobriu ainda que Larissa também fraudou o curso de formação, contando com a ajuda da advogada Laís Giselly Nunes de Araújo, apelidada de “a candidata gênio” — a mesma que, ironicamente, acaba de ser aprovada em mais um concurso público com salário de R$ 27 mil, mesmo sob investigação.

A “candidata gênio” segue imbatível — mesmo sob o peso das suspeitas

Laís Giselly, 31 anos, aparece entre os aprovados para o cargo de analista de controle externo do Tribunal de Contas de Pernambuco (TCE-PE), conforme resultado divulgado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) no dia 6 de outubro. O concurso, com remuneração inicial de R$ 27.731,32, é um dos mais concorridos do país e exigia provas aplicadas em 7 de setembro, com milhares de inscritos.

Lista de aprovados no concurso para Auditor de Controle Externo do Tribunal de Contas de Pernambuco, com destaque para o nome de Laís Giselly Nunes de Araújo.

A trajetória da pernambucana impressiona: aprovada em Medicina e Direito em universidades federais, assistente administrativa em instituição pública e auditora fiscal do trabalho pelo mesmo CNU fraudado em 2024. Um currículo que seria digno de aplausos — se não fosse o detalhe incômodo: a PF afirma que todas essas aprovações podem ter sido compradas.

Desde 2022, Laís é alvo de investigações por fraudes em pelo menos 14 concursos públicos. O estouro do escândalo veio após a análise dos gabaritos do CNU, quando a PF descobriu que as respostas dela eram idênticas às de Wanderlan Limeira, o mesmo mentor da fraude que beneficiou Larissa.

Segundo a PF, o desempenho de Laís é “estatisticamente improvável”, o que, em bom português, significa impossível sem trapaça. As investigações mostram que ela mantinha contato direto com os líderes da quadrilha, e documentos apreendidos revelam trocas de informações sobre outros concursos — inclusive o do Banco do Brasil, no qual o grupo também teria atuado.

De acordo com os investigadores, Laís seria uma das clientes do esquema, pagando caro para garantir acesso a gabaritos e respostas antecipadas. A PF rastreia as transações financeiras e comunicações entre a advogada e os chefes do grupo, apurando se as aprovações mais recentes — como a do TCE-PE — também foram contaminadas pela fraude.

O colapso do “mérito”

Enquanto Laís volta a aparecer em listas de aprovados e Larissa tenta explicar as mensagens de anabolizantes, o castelo de mentiras da quadrilha começa a desabar. A “filha de ouro” deve perder o cargo e responder por fraude em concurso público, organização criminosa e tráfico de substâncias controladas, crimes que podem somar até 33 anos de prisão.

A “candidata gênio”, por sua vez, segue solta e colecionando aprovações, como se o crime compensasse — ao menos até agora.

No país onde o mérito virou mercadoria, os concursos públicos parecem ter virado o novo mercado negro da vaidade: uns estudam até sangrar; outros pagam para posar de gênio.

leia58.blog com informações de Mirelle Pinheiro de Metrópoles

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