×

Naquela mesa, tá faltando eles

Neste domingo, a saudade apertou. O vazio na calçada de sempre me fez pensar naqueles momentos simples, mas repletos de uma felicidade que só a simplicidade pode proporcionar. Graça e Zé Pequeno eram figuras tão tradicionais nas manhãs de domingo que, sem eles, a rua parece menos acolhedora, como uma música sem melodia.

Por volta do meio-dia, era impossível não ouvir a caixinha de som deles, sempre tão afinada com a nostalgia de músicas que atravessam gerações. Jerry Adriane, Renato e Seus Blue Caps, Luiz Gonzaga… essas melodias preenchiam o ar, embalando risadas e boas conversas. Ela, com seu crochê nas mãos, e ele, sempre ali, com um tira-gosto bem preparado, às vezes uma cachacinha, às vezes um whisky — mas sempre com um convite aberto para quem passasse por ali, sempre com um sorriso, uma alegria incondicional, simples, mas genuína.

Quem passava pela calçada, muitas vezes se surpreendia com a parceria tão descontraída. Eles eram um espetáculo particular: se vestiam para a festa, mesmo que fosse apenas uma tarde de domingo, e eram um exemplo de como a felicidade pode ser encontrada nas pequenas coisas. À noite, a pizza no restaurante “4 Queijos” era um ritual sagrado, com aquele sabor inconfundível de quem vive bem, que sabe que a vida, na sua essência, é feita dessas trocas simples e verdadeiras.

E os gatos… eles sempre estavam lá, recebendo a atenção e o cuidado que só pessoas com um coração tão grande sabem oferecer. Cada gesto de carinho era uma extensão daquilo que eles representavam: amor incondicional, cuidado e a beleza de viver sem pressa.

Hoje, o silêncio tomou conta daquele lugar. A decisão judicial que os afastou de sua casa, de sua rotina, não apenas rompeu um ciclo de convivência, mas também levou consigo algo mais profundo. A ausência deles parece ter mexido com o próprio ritmo da vizinhança. A falta de sensibilidade naquele momento, logo antes das festas de fim de ano, ecoa até hoje. A incoerência da burocracia, que não consegue ouvir o som das ruas, ignorou a magia do que é viver para fazer o bem, sem exigir nada em troca.

Graça e Zé Pequeno, onde quer que estejam, sei que ainda carregam a alegria em seus corações, aquela alegria que é capaz de aquecer qualquer lugar. Que, de alguma forma, estejam em paz e cercados de amor. Um dia, nos encontraremos novamente, com mais histórias e mais risos. Até lá, guardarei na memória aquelas manhãs de domingo, o som da caixinha e o gosto da simplicidade que nunca se perde.

Boas Festas, Zé Pequeno e Graça. Que o Ano Novo traga tudo o que vocês merecem. Nos vemos, um dia, naquelas mesmas calçadas, com a mesma alegria.

Marcelo Negreiros – Jornalista


Descubra mais sobre leia58.blog

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

🔍 Concorda? Discorda? Tem uma experiência parecida ou uma visão diferente? Compartilhe nos comentários! 👇

Descubra mais sobre leia58.blog

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading