Dizem que não existe dor maior que a dor do parto. Talvez seja verdade para o corpo — mas para a alma, não há dor mais profunda que a da partida. O parto rasga, mas entrega vida. A partida rasga, e leva um pedaço da nossa.
Nos últimos dias, tenho sentido esse rasgo com mais intensidade. A vida, que tantas vezes se mostra generosa, também sabe ser dura. Primeiro, a despedida prematura de meu amigo Romuleudo — amizade que nasceu junto com a gente, na mesma rua, na mesma cidade, no mesmo pequeno universo que moldou nossas infâncias. Éramos quase irmãos, separados apenas por meses, unidos por tudo.
Depois, o golpe inesperado do dia 20 de novembro: a partida de Nilva Lucena, amiga querida da família, que me viu nascer, que me embalou, que ouviu minhas primeiras palavras e que me chamava, com doçura, de “Teum”, meus primeiros balbucios. Ela, sempre alegre, sempre parte da minha história, agora faz a travessia para o destino que a fé nos revela, mas para o qual o coração nunca está preparado.
E, como se o peito já não estivesse pesado, carrego também a memória dolorosa das partidas que mais moldaram minha alma: a de minha mãe, a de meu pai, a de meu irmão — ausências que jamais deixaram de ser presença. Cada um deles levou consigo um fragmento essencial de quem sou. E, recentemente, a partida de meu tio adicionou mais uma cicatriz a esse mapa silencioso de saudades.
Quando alguém do nosso ciclo se vai, não leva só sua própria história — leva também pedaços da nossa. São testemunhas da nossa vida, guardiões das lembranças que nos confirmam, que nos sustentam, que dizem ao mundo quem fomos. Por isso a dor é tão funda. Por isso a saudade é tão grande.
Foi assim também com meu amigo, o “Mago Irenaldo”, com quem dividi cultura, risos, aprendizado e tantos momentos que hoje vivem apenas na memória. Roberto Fortunato, meu colega de papo e de copo, também contemporâneo e tantos outros.
Partir… a palavra já anuncia seu peso: dividir, cortar, separar. A partida funda um vazio que nunca se preenche, apenas se acomoda dentro da gente. É a confirmação inevitável do ciclo da vida — esse ciclo que todos conhecem, mas do qual ninguém aprende a não doer.
Resta-me apenas orar por cada um deles. Entregar suas almas a Deus. E pedir que Ele os acolha com a mesma ternura com que, um dia, a vida os acolheu em nossos braços e em nossos corações.

Marcelo Negreiros – Jornalista










