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Um ano do Adeus, Leleu — o amigo de uma vida inteira

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Hoje o coração amanheceu pesado. O tempo, sempre tão ligeiro, resolveu parar por um instante para nos lembrar que a vida, essa travessia breve e bonita, também tem suas despedidas. E hoje lembro a despedida do meu amigo de infância, Romuleudo de Lima Renor, o querido Leleu, com quem compartilhei não apenas anos, mas uma história inteira.

Crescemos lado a lado — literalmente. Nascemos na mesma rua, filhos de pais que também eram amigos e comerciantes. Éramos duas crianças cheias de sonhos e risadas, abençoados pela vida simples e boa daquelas décadas em que a infância era feita de brincadeiras na calçada, bicicletas, bolas e amizades que se firmavam para sempre. A vida, generosa, ainda nos entrelaçou mais: sua madrinha era a mesma que a minha — e que, ironicamente, partiu há pouco tempo, como se fosse preparar o caminho para recebê-lo.

Leleu sempre foi um homem de talentos múltiplos. Inteligente, irreverente, dono de uma alegria leve e contagiante. Quando a vida lhe tirou cedo o pai e a mãe ficou sob seus cuidados, ele assumiu a responsabilidade sem perder o brilho. Era o braço direito de Dona Evany — só saía de casa depois de deixar o chão limpo e a comida pronta. Foi ali, entre o fogão e o amor de filho, que nasceu o cozinheiro de mão cheia, conhecido pelos pratos deliciosos e pelo tempero inconfundível que misturava carinho, sabor e poesia.

Gostava de boa música, e foi em torno dela que vivemos muitos dos nossos melhores momentos. Festas, shows, risadas… cheguei até a ser sócio dele em uma dessas aventuras musicais — eu, o DJ animando a noite, e ele, o negociante nato, sempre de olho no sucesso do evento (e, claro, nas garotas que passavam por ali, como bons jovens que éramos).

Além da música, Leleu carregava um talento artístico raro. Era desenhista e caricaturista de primeira, um homem que via o mundo com traços de humor e sensibilidade. Essa arte ele passou para sua filha, Rafaella Ryon, que hoje leva adiante o dom do pai e já colhe reconhecimento internacional com seus mangás.

Mas o que mais definia Leleu não era o talento, nem o humor, nem o dom para os negócios — era o coração enorme. Vi, mais de uma vez, ele tirar a própria roupa para vestir alguém que precisava, dividir o pão com quem tinha fome e a palavra amiga com quem enfrentava dor. Religioso em silêncio, rezava o terço todas as noites, e quando eu adoecia, era sempre o primeiro a chegar, com o abraço pronto e o olhar que confortava.

Quando se casou, tive a honra de ser padrinho do seu casamento, e quando a vida o levou por outros caminhos, fui também o primeiro a acolher sua nova companheira. Porque amizade de verdade não escolhe momento — ela permanece, firme, mesmo quando o mundo muda.

Irreverente, criativo, de risadas fáceis e ideias mirabolantes, Leleu era desses que transformavam qualquer encontro em festa. Foram tantos momentos, tantas histórias, que se eu tentasse contar todas, precisaria de mais que um jornal dominical — precisaria de um livro inteiro.

Ano passado, 29 de outubro, cheguei à sua casa avisado pelo nosso amigo Airton Alves — aquele companheiro de tantas conversas, cervejas geladas e pratos saborosos — e encontrei um silêncio que doeu mais que qualquer palavra: meu amigo Leleu descansava em sua rede, inerte, sereno, como quem adormece depois de uma longa viagem.

Fica em mim — e em todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo — a centelha viva de sua amizade, seu riso, sua generosidade e seu jeito único de ver o mundo.

Hoje relembro, não com adeus, mas com gratidão.
Por tudo que vivemos, por tudo que fomos.

Esteja em paz, meu irmão de infância.
Esteja contigo a música, o riso, o cheiro do tempero, as cores das tuas caricaturas e o amor que espalhaste por onde passou.

Até um dia, Leleu. 🌹

Marcelo Negreiros

Essa foto, ele pegou um spray do carnaval, vestiu um casco e simulou estar na Sibéria.

É uma saudade interessante, às vezes dá vontade de ligar para ele para fofocarmos, depois caio na real e sinto que do outro lado, o fone está mudo.

Marcelo Negreiros – Jornalista


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