O teatro de Patos: uma peça longa, cara e cheia de atos políticos
O Teatro Municipal de Patos parece mais uma peça dividida em vários atos — e, infelizmente, não estamos falando de arte, mas de política. A obra teve início ainda em 2013, através de convênio, e desde então se arrasta em meio a promessas, anúncios, inaugurações simbólicas e sucessivos aportes financeiros ao longo de mais de uma década.
Agora, em 26 de março de 2026, às vésperas de deixar o cargo, o prefeito de Patos, Nabor Wanderley, corre contra o tempo para inaugurar obras e tentar passar para a população a imagem de que está entregando grandes presentes à cidade antes de transferir o mandato ao vice-prefeito Jacob Souto.
Patos merece, sim, um teatro. Merece um espaço digno para a cultura, para a música, para as artes cênicas e para os artistas da terra. O que a população questiona não é a obra em si, mas a novela em que ela se transformou: mais de dez anos de construção, recursos enviados, prazos perdidos e, agora, uma inauguração que muitos consideram mais política do que cultural.
E a polêmica começa pelo nome. Sem desmerecer a importância do ex-ministro Ernani Sátyro, muitos patoenses que viveram e construíram a cultura da cidade talvez merecessem muito mais essa homenagem. Gente que fez teatro quando não havia teatro, que montava palco improvisado, que ensaiava em igreja, em rua, em escola, apenas por amor à cultura.


É impossível falar da história cultural de Patos sem lembrar do Grupo Teatral Amador de Patos (GETAP), no bairro São Sebastião, surgido ainda nos anos 1970, formado por jovens da União da Juventude Cristã. Ali estavam nomes como João Emídio da Silva, um verdadeiro batalhador da cultura popular, que coordenava mais de 30 jovens atores.
No bairro Santo Antônio, Lula Fragoso comandava o grupo que encenava a Paixão de Cristo nos anos 70. No centro da cidade, nomes como Riltom Meira e José Romildo de Souza também lutaram, durante décadas, para manter o teatro vivo em Patos, mesmo sem estrutura, sem recursos e sem apoio público.
Essas pessoas ajudaram a construir a história cultural de Patos quando fazer cultura era resistência. Por isso, muitos se perguntam: por que um equipamento cultural tão importante não leva o nome de um desses personagens da cultura patoense?
O teatro de Patos foi, na verdade, uma obra que se antecipou em tudo:
teve nome antes de existir,
teve diretor antes de funcionar,
teve inauguração antes de terminar,
só não se antecipou em abrir as portas para o povo.
Enquanto isso, a população assiste a tudo como espectadora de uma peça repetida: discursos, inaugurações, placas, fotos e promessas. Nas redes sociais e nos programas de rádio, o comentário é um só: a obra virou palanque e cenário político para quem sonha com voos maiores.
E assim segue a peça do teatro de Patos:
uma obra que demorou mais de uma década, custou caro, passou por várias mãos, vários discursos, vários atos…
mas cujo espetáculo principal sempre foi a política.
Talvez esteja na hora de mudar o roteiro.
Porque cultura de verdade não se inaugura com discurso.
Se constrói com respeito à história e às pessoas que fizeram a cultura existir quando nem teatro existia.
Hora de acordar, Patos.
leia58.blog











